As avenidas que atravessaram os caminhos durante as entranhas que se abriram até aqui, devem a sua carona ao marco da velocidade imóvel. Não podemos ser ingratos aos deslocamentos que nos transferem, apesar deste atual modelo transfigurar paisagens/pessoas... as fontes da vida canalizada apenas sugerem, no seu “estilo de vida”, a memória das civilizações que, como elas, seguem o fluxo em um cano subterrâneo alimentando vícios e existências.
O processo, digamos, desconstrutor, da intervenção cênica Vento ao leste, enquanto sopra o tempo me permitiu dar mais um passo de encontro aos abismos existentes entre o ser vivo/ser lugar e suas extremidades.
O convite feito do SESC Itaquera ao coletivo ALMA dentro do projeto Barravento, realizado pelo Núcleo de Integração e Gestão Ambiental foi a ponte para nos reabilitarmos naquele espaço. O evento Arvore Ser reuniu diversas manifestações artísticas e educativas para propor um diálogo com o público de passagem sobre os propósitos de plano de manejo da área. Uma intervenção performática que simbolizasse a árdua travessia tecnocrata da retirada de eucaliptos ao plantio de árvores nativas.
A partir deste prisma navegamos por alguns lugares onde reconhecer o não lugar foi o barlavento que nos guiou aos sentidos híbridos do termo Barravento. E dentro do que permite de um lado e não permeia de outro, foi necessário desconsiderar relações diretas com o histórico de ocupação populacional da área em questão, localizada na APA do Carmo.
Tínhamos pouco menos de um mês. Passamos pelas desconjunturas capitalistas na ocupação dos territórios humanos, nas relações engenhosas da imobilização dos espaços, pelo dilatar da pupila com Glauber Rocha, os ritos de passagem com Maura Baioochi, nas ruas com os tráfegos, camelódramos, clows, viadutos e penhascos. Paramos em nós, diante um lugar desconhecido, inóspito e habitado.
Uma quase réplica de jangada foi construída com troncos da jovem morta e desconhecida árvore seca, aos trancos e barrancos que transitam entre refugo, entulhos e vestígios de terra.
Assim demos início a travessia. O camarim era o ponto de partida do homem/tronco/ a ser loteado ao homem/ser/de algum lugar. Seus passos estreitamente vigiados impermeabilizavam o trajeto de maneira que as pessoas se aproximassem sem compromisso.
Assim demos início a travessia. O camarim era o ponto de partida do homem/tronco/ a ser loteado ao homem/ser/de algum lugar. Seus passos estreitamente vigiados impermeabilizavam o trajeto de maneira que as pessoas se aproximassem sem compromisso.
Cinco mulheres que o plantaram em algum ventre, se desfaziam do território físico como grandes empreendedoras de um futuro próspero ao mesmo tempo em que, carregar o corpo daquele homem era o símbolo das mortes que as superavam: medos, angústias, vazio, apegos, verdades, contradições...
Vento leste, enquanto sopra o tempo passou a ser a cada passagem, aquele corpo cimentado que o mar devolve. A morte do que sempre renasce, do mesmo pó ou em outro continente, de outras formas ou em muitas línguas. Um mosaico de cacos de espelhos e vísceras.
Elenco
Elenco
Nayê Mello
Maria Cecília Mansur
Letícia Leal Amoroso
Thabata Ottoni
Mauro Grillo Gentil
Trilha sonora
Nayê Mello
Letícia Leal Amoroso
Cia Porto de Luanda
Cia Porto de Luanda
Imagens
Eliana Maurelli
Eliana Maurelli
Produção
Coletivo ALMA

















