terça-feira, 20 de março de 2012

Senhora me disse que foi a fonte...


 As avenidas que atravessaram os caminhos durante as entranhas que se abriram até aqui, devem a sua carona ao marco da velocidade imóvel. Não podemos ser ingratos aos deslocamentos que nos transferem, apesar deste atual modelo transfigurar paisagens/pessoas... as fontes da vida canalizada apenas sugerem, no seu “estilo de vida”, a memória das civilizações que, como elas, seguem o fluxo em um cano subterrâneo alimentando vícios e existências.

 O processo, digamos, desconstrutor, da intervenção cênica Vento ao leste, enquanto sopra o tempo me permitiu dar mais um passo de encontro aos abismos existentes entre o ser vivo/ser lugar e suas extremidades.

  O convite feito do SESC Itaquera ao coletivo ALMA dentro do projeto Barravento, realizado pelo Núcleo de Integração e Gestão Ambiental foi a ponte para nos reabilitarmos naquele espaço. O evento Arvore Ser reuniu diversas manifestações artísticas e educativas para propor um diálogo com o público de passagem sobre os propósitos de plano de manejo da área. Uma intervenção performática que simbolizasse a árdua travessia tecnocrata  da retirada de eucaliptos ao plantio de árvores nativas.

  A partir deste prisma navegamos por alguns lugares onde reconhecer o não lugar foi o barlavento que nos guiou aos sentidos híbridos do termo Barravento. E dentro do que permite de um lado e não permeia de outro, foi necessário desconsiderar relações diretas com o histórico de ocupação populacional da área em questão, localizada na APA do Carmo.

  Tínhamos pouco menos de um mês. Passamos pelas desconjunturas  capitalistas na ocupação dos territórios humanos, nas relações engenhosas da imobilização dos espaços, pelo dilatar da pupila com Glauber Rocha, os ritos de passagem com Maura Baioochi, nas ruas com os tráfegos,  camelódramos, clows, viadutos e penhascos. Paramos em nós, diante um lugar desconhecido, inóspito e habitado. 

  Uma quase réplica de jangada foi construída com troncos da jovem morta e desconhecida árvore seca, aos trancos e barrancos que transitam entre refugo, entulhos e vestígios de terra. 

  Assim demos início a travessia. O camarim era o ponto de partida do homem/tronco/ a ser loteado ao homem/ser/de algum lugar. Seus passos estreitamente vigiados impermeabilizavam o trajeto de maneira que as pessoas se aproximassem sem compromisso. 

  Cinco mulheres que o plantaram em algum ventre, se desfaziam do território físico como grandes empreendedoras de um futuro próspero ao mesmo tempo em que, carregar o corpo daquele homem era o símbolo das mortes que as superavam: medos, angústias, vazio, apegos, verdades, contradições...

  Vento leste, enquanto sopra o tempo passou a ser a cada passagem, aquele corpo cimentado que o mar devolve. A morte do que sempre renasce, do mesmo pó ou em outro continente, de outras formas ou em muitas línguas. Um mosaico de cacos de espelhos e vísceras. 

Elenco
Ana Rolf
Nayê Mello
Maria Cecília Mansur
Letícia Leal Amoroso
Thabata Ottoni
Mauro Grillo Gentil

Trilha sonora
Nayê Mello
Letícia Leal Amoroso
Cia Porto de Luanda
Imagens
Eliana Maurelli

Concepção e Roteiro
Thabata Ottoni

Produção
Coletivo ALMA








Description: http://img.uol.com.br/x.gifFotos de Aloysio Letra e Renata Teixeira

segunda-feira, 5 de março de 2012

“Temos que fazer a dança para poder plantar dinovo...”[1]

            De cá pra lá e de lá pra cá... “cá estou eu no meio do caminho, havendo...” na continuidade das andanças interdependente e vivendo o refluxo das veredas paulistanas após o intenso ciclo tapajônico.
   Ainda em processo do refazer as pazes com os transtornos psicofísicos e espaciais, dito de passagem, da incorrigível ditadura da mobilidade humana urbana (em pensar que a paulicéia antes das grandes avenidas e viadutos, era conduzida pelas águas...), deixei o ouvido e o nariz permear as rachaduras do pé de novembro no Centro de Dança Humberto da Silva passando pelo Festival Internacional de Dança Contemporânea na oficina “Posiciona-se, Reposicionar-se” que moveu não só as percepções engessadas, mas um punhado de ar e terra dentro dos estímulos do corpo, sob a silenciosa orientação de Michele Moura- Coletivo Couve Flor/Curitiba.
    Das trocas feitas e nós desfeitos aproveitei a oportunidade de esticar um pouco mais a coluna acesa no Núcleo de Formação e Pesquisa Taanteatro- NUTAAN 2011/12 conhecendo de pertinho o trabalho de Wolfgang Pannek e Maura Baioochi.   O ano fechou os centros de mandala e mares rítmicos despertados ao “cubo de ensaio” por esses típicos... como poderia defini-los... “alquimistas do corpo!”
 “... a onda que leva e volta ao redor, engole, recua e transborda rocha, fogo...o mar devolve o corpo que não quer desmanchar...” Essa é uma das sensações descritas no ventre após a experiência do mandala de energia corporal[2].
     E do sentir ao quase nada a dizer durante o processo, pude aprimorar um espaço de escuta sensorial e física, passando entre ao exercitar durante e diante das exigências vividas: “Da fuligem o vento traz o cosmo... assopra no corpo... desfila no penhasco.”- outros descritos...
    A arte como provedora de estados sociais me sugere dentro destes processos criativos motivadores uma investigação profunda na estética das emoções que cavam com o corpo o caminho das pedras, no despertar imemoriável das danças que nascem da mesma fonte que fazem os cabelos ou as plantas crescerem. Um movimento involuntário de propósitos, contato/controle/conduzido bioenergeticamente pode gerar uma influência externa recriando espaços internos, onde é manifestado o ambiente em sua plena expressão de vida. O encontro entre o oculto e o vazio na totalidade da existência humana/elementar.
  As condições sociais em que nasceram as danças tradicionais milenares são de fato, um indicador determinante para a existência de um corpo coletivo que ressoa o mundo e atravessa gerações.   Diante do atual contexto e valores sociais que redireciona o planeta no sentido oposto do seu ciclo vital, me questiono: quais são as condições necessárias que nos permitem dançar a lua cheia, permear rochas e asfalto, girar rodas para motivar as plantas, celebrar a dor de cada mudança, a passos que não foram marcados pelas estações ou na memória coletiva? 
     Ainda que algumas respostas possam estar nas prateleiras restritas de sentido histórico, reviver o corpo que nos habita é destilar a substância do próprio espírito. Ou como nos indica um dos mestres da atemporalidade humana, “Seu corpo é um livro de milhões de anos...”  (Kazuo Ohno). 
   
                          Gratidão Profunda!







[1] Povo Guarani-Kawoá.
[2] Rito de Passagem, Maura e Wolfgang-pg. 20

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Na trilha do merizeiro






Saudações aos ciclos de retorno,

Partilhamos o curtinha do meri, feito a partir de algumas imagens do processo criativo, pesquisa e montagem do espetáculo.
Um salve especial aos entrevistados e inspiradores mór de todo o processo: os catraieiros seu Cantino Ferreira (do remo e causo do boto), seu Raimundo da Silva, (dos causo e merizeiro), seu Laurimar Leal (dos cantos), dona Luzia Lobato (dos pães e encantos) e um punhado de gente que deixou sua história na memória das andanças...

Ah, a trilha do meri contou também com o Chico Malta, Projeto Construsom e na edição das imagens o trio Phillipe Urvoy, Daniel Wegmann e Eliana Maurelli.

Valeu galera, e até os próximos passos ou os passos próximos...

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"à sombra do merizeiro" no Café Filosófico Comunidade


       A breve chuva durante a estréia, em pleno céu aberto nas ruínas do museu, pareceu oferta dos
espíritos - um regador, para sementes dançarinas - e seguiu a primavera teatral.

     Após os primeiros botões de flor em Alter e São Braz, o grupo se apresentou pela terceira vez agora no auditório da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), para o Café Filosófico Comunidade.
O evento, realizado na sexta-feira do dia 30/09, buscou promover o diálogo entre comunidade acadêmica e sociedade santarena, reunindo diversas apresentações de artistas e saberes locais, ligados a música,
cinema, fotografia, poesia, pintura, artesanato, gastronomia, filosofia e... teatro!

   A trupe Danças e Andanças aceitou o convite, e foi compartilhar suas memórias e esquecimentos, seus claros e escuros, seus pesos e levezas, enfim, seu mosaico de histórias, agora com o público de Santarém.
Segue a dança, segue a canoa, seguem as flores. À sombra do Merizeiro.



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E o grande dia chegou!

"...Ao lutar com seus homens nutrindo os filhos do leito..."



    Com requintes da lua cheia iluminando as réplicas dos desenhos indígenas nas ruínas do antigo museu do índio, o espetáculo “à sombra do merizeiro” estreou depois de quase seis meses de processo criativo e de arte educação.
     O espetáculo foi fruto de uma oficina de iniciação teatral desenvolvida dentro do  projeto “Danças e Andanças” que reuniu duas turmas de diferentes comunidades (Alter do Chão e São Braz) em torno de estórias e histórias de vida dos povos da Amazônia em uma montagem de cunho ritualístico e intergeracional.



    E na noite seguinte foi a vez da Comunidade de São Braz receber os frutos de seu acolhimento. Para não perder a proposta de cenário vivo as águas que nos guiaram ao fundo dos rios pelas veias amazônicas, a beira do Igarapé do Balneário RP da Dona Maria Rosane, foi o palco da segunda noite que abrigou as estrelas que iluminaram as folhas trocadas no último dia do processo...




























Projeto Construsom na trilha sonora do merizeiro



                Andarilhos e Dançadeiros
Cauã Nóbrega
Valmir Nobre
Jade Nobre
Iaci Penteado
Fabiano Jucá

Ronaldinho Nobre
Danimara Queiróz
Elen Patrícia
Lairton Lucas
Glória Queiróz
Maria Cualene Santos
Woshington Elasio Cardoso
Zagalo Rocha
Andria Juliane
Gilmar Alves
Elisandra Cheiro
Investigadores de memória: Iris Gabriela Costa,Caroline Castro,Iaci Penteado,Aluá Faria,Nuíta Jasmim,Ahimsa Faria, Ezequiel Pereira,Tainá Nobrega,João Costa,Thabata Ottoni e Daniel Wegmann.
Entrevistados: Luzia Lobato, Civito Malaquias,Raimundo José Sardinha,Elson Correa,Maria Benedita,Rafael dos Santos,Cantino Ferreira, Maria Costa, Laurimar Leal, Ezequiel Pereira, João Costa e Elen Patrícia e Brenda Alves.
Colaboradores: Iaci Penteado,Juliana Balsalobre,Juliana Jucá,Jorge Indio,Conselho Comunitário de Alter do Chão,Maria Auxiliadora, Associação dos Moradores São Braz,Escola Municipal Boa Ventura,Adelina Vieira,Espaço Alter do Chão (Borô) Circo Alter, Arte Grupo Lago Verde,Thiago Oliveira,Suely Nobrega,Marcos Motta Abreu, Dr. César Macedo, Alessandra Faria e Allison Jone e Eugênio Scannavino Netto.
Figurinos: Juliana Jucá (Jujucá)
Iluminação e imagens: Phillipe Urvoy
Designer Gráfico: Marcos Motta Abreu
Construção das máscaras: Elen Patrícia,Cauã Nobrega, Maria dos Santos, Woshington Elásio, Mateus e Brenda Alves.
Orientação máscaras: Cauê Nobrega e Carlos Godoy
Músicas do espetáculo: “Bumba bumba”(música angolana de reverência as águas transmitida oralmente por Laurimar Leal) Homenagem ao Espanta Cão,Salve as folhas”(de Ildásio Tavares, álbum Brasileirinho Maria Betânia),A vida de Todo eles (de Thabata Ottoni e Daniel Wegmamm)
Direção Musical:Alan Cheto
Músicos: Participação especial do projeto Construsom com, Alan Cheto,Rafael Jucá, Daniel Wegmann e Catraca  Blue.
Produção: Danças e Andanças
Dramaturgia: Daniel Wegmann e Thabata Ottoni
Direção: Thabata Ottoni




 
                                                   fotos: Marcio Ramos e Phillipe Urvoy








sábado, 27 de agosto de 2011

à sombra das ruínas






    A sombra dos merizeiros e samaúmas segue alumiando as cenas dos últimos ensaios do espetáculo
" À sombra do merizeiro" que agora dança de nome e tudo do que nos alimentamos estes cinco intensos meses de processo, entre idas e vindas, faltas e recompensas, travessias e turbulências, brincadeiras e descobertas de todos os lados.

  Hoje fizemos o primeiro encontro nas ruínas do antigo museu do índio após alguns dias sob à luz do sol intenso carregando fragmentos dos seus escombros inspirados naqueles singelos trabalhos das formigas. De balde em balde, pedrinha por pedrona, juntando cacos e até restos de algumas peças que deveriam compor a paisagem interna do espaço.

    E no meio dos escombros um palco enterrado na areia branca, madeira e palha. Desenterra-lo foi como encontar um tesouro daqueles que buscamos no inconsciente da nossas ações, sem saber ao certo o significado dessa busca e dos valores que encontramos...




  Resignificar um espaço degradado é como encontrar sobreviventes diante a uma tragédia. E em meio a um contexto cultural onde o massacre a cultura índigena perpetua em seus diversos níveis (exemplo a Belo Monte) um resto de museu sob os escombros da memória desses povos e suas desmoradas nos leva refletir sobre os valores que conduzem ao esquecimento.   As ruínas como um reflexo do que somos e onde estamos. Do que foi e do que estaria ( e está por vir) do que existiu e o que pode continuar a existir...e resistir.

  Compartilharemos em mais detalhes a partir do teatro que nos coube enquanto um, enquanto o outro, alguma dessas impressões, invenções e reinvenções desta realidade imaginada.












sábado, 30 de julho de 2011

Máscaras e momentos


Visagens sob as máscaras


Ensaio geral no Centro Comunitário de São Brás





Criando um corpo